CRÓNICA DE UM ‘TAL OBSERVADOR’: O TAMANHO CONTA ?

Não, não vamos falar se sexo. Quem me conhece sabe que eu tenho 2 amores, a família e a rádio. Desde os 13 anos que esta paixão me ‘enfeitiçou’ e contra ventos e marés cá estamos 30 anos depois. Há pelo menos dois cartões que me acompanham sempre; o “Cartão de Cidadão” e a “Carteira Profissional”, e só depois vem o sempre útil e necessário multibanco. Esta introdução não é palha, é um alerta para que percebam duas coisas: primeiro conheço muitíssimo bem a Lei da Rádio (mau era ao fim de 30 anos); segundo a rádio não é uma profissão é uma paixão, por isso levo isto muito a sério.

Tenho assistido nestes últimos dias a uma inenarrável polémica que mais se parece com a velha e pouco consensual discussão: SERÁ QUE O TAMANHO CONTA ?

Tudo começou com um tal OBSERVADOR que por estes dias lançou uma verdadeira campanha nacional contra um alegado “apoio” do Estado aos Órgãos de Comunicação Social. Esse tal OBSERVADOR recusou vender espaço publicitário ao Estado Português no valor 19.906,29 € entretanto corrigido para 90.569,00 €.


A PARÁBOLA DO TRIGO E DO JOIO;

Eu até consigo perdoar um mentiroso involuntário (aquele que também foi enganado), mas não me peçam para ser simpático com mentirosos profissionais (aqueles que sabem a verdade, constroem a mentira e depois servem-se dela).

Em primeiro é falso que o Estado Português esteja a “dar dinheiro” aos Órgãos de Comunicação Social. A verdade é que nos termos da Lei 95/2015 de 17 de Agosto, o Estado Português, como qualquer pessoa/empresa, está a comprar publicidade aos Órgãos de Comunicação Social ao abrigo de um normalíssimo contrato de cliente/fornecedor. A Comunicação Social vive quase exclusivamente das receitas publicitárias, e o Estado limitou-se a fazer uma compra antecipada da publicidade que vai utilizar nos próximos 18 meses.

A forma como esse tal OBSERVADOR transformou um mero contrato cliente/fornecedor num subsídio a fundo perdido é simplesmente uma “fake news” especialmente agravada com intenção de passar a ideia que o Estado estaria a “comprar” a comunicação social.

Se esse tal OBSERVADOR se sente “controlado” pela simples venda de publicidade é um problema deles. Mas não tem o direito de dar a entender que o Estado está a “comprar” a independência de todos os demais Órgãos de Comunicação Social sérios que empregam jornalistas honestos.

Quem se arroga ao pedestal de ser o suprassumo da independência, devia também ser o exemplo no cumprimento do Código Deontológico dos Jornalistas, nomeadamente na parte em que os jornalistas não devem usar a sua profissão para publicar notícias em que são parte interessada.

Bertolt Brecht dizia que “Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso“.  Posto isto, o que dizer de uma certa virgem ofendida que depois de semear um clima de suspeição sobre toda a comunicação social ainda se arroga ao direito de vir dizer que “A ignorância é a mãe de todas as arrogâncias” … é irónico ou quiçá desfaçatez de quem calado seria um poeta.

Quem diz o que não deve, arrisca-se a ouvir o que não gosta. Por muito que custe, em boa verdade esse tal OBSERVADORe com todo o respeito que merece – não passa de um site de notícias e duas rádios locais, que independentemente da real ou aparente dimensão é regulado pelos mesmos direitos e obrigações que os demais Órgãos de Comunicação Social. Nem é mais nem é menos, é o que à sua verdadeira dimensão.

Acredito que quem se envergonha de ser pequeno não está preparado para ser grande, porque a humildade não se compra nem se aprende; é uma vocação natural vem do berço e corre no sangue de cada um. Ser grande não é algo que se diga, mas é algo que se mostra pelos nossos actos.


AFINAL O TAMANHO CONTA ?

Eu que conheço a rádio em portugal como as minhas mãos, pergunto-me porque razão duas rádios locais e um site de notícias é considerado um grupo de referência na comunicação social? Tenho as minhas dúvidas.

Confesso que aprecio os “saltos altos” nas senhoras como um elegante adereço moda; mas não aprecio o uso de tamancos para se ser quem não é!

De acordo com os registos oficiais da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social, esse tal OBSERVADOR registou-se em 18-12-2012 como “Publicação Periódica Diária” de “Informação Geral” com difusão exclusiva online, tendo-lhe sido atribuído o número de registo 126302. Com 100 euros paga-se este processo de registo … e ainda sobra dinheiro!

Há apenas um ano esse tal OBSERVADOR lançou-se no meio rádio. Em 28 de Maio de 2019 adquiriu 51% de uma rádio local chamada Rádio Baía – Sociedade de Radiodifusão Lda, a operar na frequência 98.70 mhz, cuja licença foi atribuída ao concelho do Seixal (Setúbal). Prova disto pode ser consultada aqui: DELIBERAÇÃO ERC/2019/150 .

Em Setembro de 2019 esse tal OBSERVADOR expandiu-se para o Porto; deste vez por via de um acordo de “associação” com outra rádio local (conforme prevê o artigo 10 da Lei da Rádio) à data denominada Rádio XL então propriedade da RFA – Rádio Foz do Ave Lda, a operar na frequência 98,4 mhz, cuja licença foi atribuída ao concelho da Maia (Porto). Prova disto pode ser consultada aqui: DELIBERAÇÃO ERC/2019/268. Prova disto pode ser consultada aqui: DELIBERAÇÃO ERC/2019/268.

Duas rádios locais há um ano no mercado: POR QUEM SE TOMAM? Perguntem à ERC … Vão responder com a verdade e rigor que se impõe.

A verdade também me obriga a reconhecer que esse tal OBSERVADOR são um excelente site de notícias e uma excelente rádio. O produto em si é bom, e são os profissionais desses projectos que por outras razões estão os parabéns; porém liderados por uns “convencidos” que já nem se escondem para mostrar ao que vêm !!! Facilmente se percebem as tendências políticas e visões politizadas da actualidade informativa.

Caros “observadores”, eu sei que até entrevistam gente importante, reconheço que fizeram algumas boas contratações, mas só as camisolas não ganham jogos. Podem ter uma estrela da Vodafone na liderança que dá jeito para abrir algumas portas, mas não é por isso que a fita métrica encolhe e não é assim que abrem a porta mais importante: a porta dos portugueses !


QUEREM MESMO FALAR DE CRITÉRIOS ?

No passado dia 20-05-2020 o tal OBSERVADOR publica uma notícia sobre si próprio onde grita aos quatro ventos “Administração do jornal Observador e da Rádio Observador diz que o programa não cumpre critérios mínimos de transparência“. Finalmente estamos de acordo !!!

Realmente seria interessante falar dos critérios que leva ao Estado a comprar publicidade no valor de 90 mil euros a esse tal OBSERVADOR e não atribuir os mesmos valores a outros concorrentes igualmente merecedores.

Ao nível da rádio a situação é hilariante; porque na internet o melhor registo de sempre foi de 1146 ouvintes ao mesmo tempo e em dias normais não passam de médias entre 50 e 200 ouvintes de pico (hoje pelas 10:00 registava 198 ouvintes online ao mesmo tempo). Certo é qualquer rádio local regista audiências como estas. A título de exemplo, a RÁDIO ORBITAL, RÁDIO AMÁLIA, RÁDIO NOVA ERA, RÁDIO FESTIVAL, RÁDIO NO AR (MAIA), RÁDIO POPULAR FM ou HIPER FM (mesmo algumas sendo rádios musicais e que provavelmente vão receber zero) registam audiências online diárias até 10 vezes superior a esse tal OBSERVADOR.

Por experiência própria uma rádio local que por exemplo transmita um jogo de futebol de uma Segunda Liga ou Campeonato de Portugal, facilmente chega aos dois mil ouvintes online e assim com melhores audiências do que alguma vez esse tal OBSERVADOR alcançou.

Se desejarem sempre podemos publicar as vossas audiências online minuto a minuto em todo os dias do ano … Querem passar por essa vergonha?

Grupos de rádios locais, como por exemplo RÁDIO MUNDIAL, GOLO FM e RÁDIO REGIONAL suportam custos de energia eléctrica, taxas de regulação e taxas radioelectricas muito superiores do que esse tal OBSERVADOR (porque também possuem mais estações de rádio e foram muito mais prejudicados pelo Covid-19) contudo apenas recebem uns míseros 6 mil euros.

Ao nível da informação exclusivamente online, no que toca a acessos/visitantes, sites como NOTÍCIAS AO MINUTO ou SAPO24 batem em toda a linha esse tal OBSERVADOR.

Também é no site que encontramos a “realidade que ultrapassa a ficção”. Desta vez foi esse tal OBSERVADOR que foi detalhadamente observado por que “sabe da poda”, e nem o “proxy server” da Cloudflare lhes valeu … E não é que ficamos realmente surpreendidos ?

Desde logo o “build” estrutural do site está baseado no gratuito (mas muito versátil) WordPress tal como qualquer vulgar publicação online faz. O grafismo está baseado num “theme child” de cuja “main-frame” também grátis.

Rapidamente se encontrou os “tracking code” que analisa os verdadeiros visitantes ao site: UA-49xxxxx6-3 (que rastreia todo o tráfego do site) e o UA-116xxxx9-1 (que rastreia apenas a pay_frame do site). O resto foi canja e “voilá” ficamos a saber, de fonte seguríssima, que afinal esse tal OBSERVADOR está muito longe do sucesso que apregoa ter … E não nos façam publicar tudo o que temos, porque vão ficar mesmo envergonhados.

Outro facto digno de registo é aquele “countdown” que convida os leitores assinar e supostamente regista o valor de assinaturas online desde o dia 20-05-2020, o objectivo é alcançar em alegadas “assinaturas” e em poucos dias o mesmo valor que o Estado lhes ofereceu pela compra de publicidade. Como gostamos de “dissecar mistérios” e porque acreditamos que “não há duas sem três” decidimos investigar. O malogrado “countdown” é uma “iframe” oriunda da localização “/donation-status/” que por sua vez lê dados dinâmicos oriundos do “/public/campaign/1/json”; ou seja, são dados dinâmicos facilmente manipuláveis e sem qualquer credibilidade … Também aqui não nos façam publicar o resto !!!!

Não deixa de ser estranho qualquer site transparente recorrer a entidades externas certificadas que validam as visitas reais e válidas para efeito de scoring … algo que por análise técnica não se encontra no “mundo faz de conta” desse tal OBSERVADOR.

Em resumo, querem mesmo falar de critérios? Aplicando correctamente o valor legal atribuído às rádios locais e às publicações exclusivamente online, e havendo critérios realmente claros o tal OBSERVADOR provavelmente nem a 19 mil euros teria “direito”.  Eu pessoalmente não acredito que o Sr. Secretário de Estado alguma vez se tivesse enganado. Enganou-se sim quando, na minha opinião, não entendeu a “agenda” desse tal OBSERVADOR que era “pegar por ter cão e não ter cão“.

Ainda para esclarecer fãs da teoria da conspiração os dados analisados são públicos, porém só acessíveis a quem “percebe da coisa”.


EM MEMÓRIA AO “SOLDADO ANÓNIMO”;

Esta é a parte mais confrangedora de tudo isto. É obsceno que meia dúzia de galos lutem entre si por 11,25 milhões de euros; e os restantes 400 jornais e 200 rádios dividam entre si 3,75 milhões de euros, e estes são os verdadeiros heróis desta história tratados como o “soldado anónimo”, ou seja, aquele que realmente lutou no terreno.

Os jornais/rádios locais fazem milagres diários e representam a grande maioria dos postos de trabalho da comunicação social no país, e são esses que desempenham um papel insubstituível no escrutínio autárquico, esse sim, o mais relevante no dia-a-dia dos cidadãos.

Lanço-vos um desafio, venham perguntar à esmagadora maioria de “Zés” e “Marias” espalhados por todo o país quem realmente lhes faz companhia, se a rádio da sua terra ou se esse tal OBSERVADOR que para lá do Tejo ninguém sabe que existe.

Termino com um célebre pensamento de Bob Marlei: “Quem não diz a verdade sobre si próprio, jamais dirá a verdade sobre os outros“. Recomendo-vos que antes de observar terceiros, tenham a coragem de se observarem a si próprios … E nunca se esqueçam que a humildade é uma chave mestra que lentamente e a seu tempo abre todas as portas.

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